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Bernard Abreu fala sobre exames de compra, os segredos da criação e os riscos da ICSI no hipismo

  • há 21 horas
  • 5 min de leitura

O novo episódio do Clac Cast recebe o médico veterinário e consultor genético Bernard Abreu. Com uma trajetória de 25 anos no universo do cavalo Brasileiro de Hipismo (BH), e tendo uma formação muito prática da rotina hípica, desde a base dos serviços de cocheira, o profissional traz uma visão científica e muito honesta sobre o mercado equestre.


Por que a estatística e a tecnologia não substituem a capacidade clínica?

Bernard é conhecido no meio por seu foco no estudo de estatísticas, bancos de dados internacionais (como o Hippomundo e HorseTelex) e por sua visão analítica sobre genética e resultados esportivos. Para ele, o uso de ferramentas matemáticas e bases de dados não diminui o talento do criador ou cavaleiro, mas atua como um "fortificador de opiniões" essencial em um esporte de alta complexidade.


No entanto, Bernard alerta para uma perda de capacidade clínica generalizada no meio médico e veterinário decorrente do excesso de confiança em exames de imagem modernos (raios X digitais, ressonâncias e ultrassons), além de aplicativos que fazem exame clínico com base em vídeos.

"Antigamente, em uma consulta médica, te deitavam na maca e te examinavam. Hoje não, mandam fazer um monte de exames e leem os exames para te dizer o que tem. Isso perde capacidade clínica, perde o "feeling". Se acabar a energia em uma grande clínica nos Estados Unidos ou na Europa, ninguém consegue tratar um cavalo porque se embasam muito mais na ressonância do que na clínica", explica Bernard.

Bernard reforça que a clínica é soberana: a presença de uma alteração de imagem (como um fragmento de OCD) pode ter pesos clínicos totalmente diferentes em dois cavalos distintos. "Não existe cartilha. Por isso, prefiro dez mil vezes fazer um bom exame clínico a radiografar o cavalo inteiro. Quero saber se dói ou se não dói", destaca.


A polêmica do exame de compra


Um dos grandes tabus do mercado é a ideia de que os exames de compra se tornaram rigorosos demais a ponto de "reprovar" animais excepcionais com base apenas em laudos de imagem. Bernard desmistifica esse estigma com um posicionamento claro:

"A decisão de compra ou não compra do cavalo nunca é do veterinário. A gente faz pura e simplesmente uma avaliação da condição física do animal naquele dia e naquele momento. Essas condições podem mudar de um dia para o outro e a palavra final sobre a compra é sempre do comprador", explica.

Bernad também explica que o exame de compra não é uma garantia vitalícia ou um veredito de aprovação/reprovação. Ele serve para mapear os riscos físicos e dar segurança ao investidor sobre o status do cavalo no momento da transação. Caberá unicamente ao comprador, com base em seus objetivos, orçamento e assessoria profissional, decidir qual nível de risco está disposto a correr por aquela oportunidade comercial.


O que é a ICSI e quais os reais riscos biológicos e genéticos para o hipismo?

Se por um lado a tecnologia reprodutiva da ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoide) é uma ferramenta espetacular para viabilizar a reprodução de éguas com problemas de fertilidade ou otimizar o uso de sêmens raros e de baixa qualidade (como o do lendário For Pleasure), Bernard expressa sérias preocupações quanto ao seu uso puramente comercial e indiscriminado em éguas jovens e saudáveis.

Ele aponta que a ICSI é um procedimento altamente invasivo para a égua. O processo envolve guiar uma agulha através da parede vaginal (uma cavidade séptica) até a cavidade abdominal para puncionar o ovário. Os riscos clínicos incluem:


  • Formação de grandes abscessos ovarianos pós-aspiração;

  • Ruptura de abscessos e ocorrência de peritonites severas;

  • Hemorragias e fibroses ovarianas, que levam à perda progressiva da função do ovário e diminuição da fertilidade natural;

Bernard também ressalta que, estatisticamente, os produtos gerados por ICSI apresentam maiores taxas de perdas embrionárias precoces (após os 120 dias de gestação), nascimentos de potros mais frágeis, maior suscetibilidade a infecções e uma incidência superior de problemas radiológicos/articulares na comparação com a Transferência de Embrião (TE) convencional e a monta natural.


Porém, o veterinário afirma que, com sua experiência, já verificou que "se o potro nasce e chega saudável ao período da doma, a partir daí os riscos da ICSI já ficaram para trás. Isso porque, a partir da fase de doma, tenho visto que não faz diferença nenhuma o tipo de inseminação que gerou aquele animal", disserta.



O perigo do afunilamento genético

Do ponto de vista da criação, a facilidade de comercializar embriões gerados por ICSI cria um gargalo de consanguinidade que, na opinião de Bernard, é perigoso a longo prazo. Segundo ele, como o mercado tende a focar apenas nas matrizes líderes do ranking (como a número 1 do mundo, Cordula de Laubry), excelentes linhas maternas alternativas deixam de ser selecionadas e acabam desaparecendo.


Bernard usa o exemplo do Haras BR, onde a matriz Winnie (com 6 produtos de destaque ou Black Types) e sua filha Katrine (com 4) foram selecionadas metodicamente, gerando uma nova árvore genealógica de sucesso a partir de critérios rigorosos de seleção clínica e esportiva, em vez de apenas seguir as "modas" comerciais.


Linhas maternas: a lição histórica de Opaline des Pins e Cordula de Laubry

Para ilustrar como os dados de criação podem ser interpretados sob diferentes óticas, Bernard traz um debate clássico entre os maiores criadores da Europa sobre qual seria a "melhor égua do mundo":

  • A visão comercial moderna: Aponta Cordula de Laubry como a número 1, devido ao impressionante número de produtos com chancela Black Type produzidos no terço final de sua vida útil, após ser amplamente submetida às modernas técnicas de reprodução assistida.

  • A visão tradicionalista europeia: Consagra Opaline des Pins como a maior de todas. Ela é a única égua do mundo que saltou provas internacionais de 1,60m, nunca fez transferência de embriões (TE), nunca passou por ICSI e gestou, em seu próprio útero, cinco cavalos de nível internacional por cinco gerações seguidas. Uma estatística natural única, extremamente difícil de ser replicada no mundo moderno.


A adaptação do mercado pós-pandemia: onde está o verdadeiro gargalo?

Bernard analisa o ciclo de mercado do hipismo brasileiro pós-pandemia. A entrada massiva de novos investidores inflou a procura e disparou os preços de potros nos leilões (comercializados em até 50 parcelas). Isso estimulou um aumento drástico na criação, com o número de nascimentos de cavalos BH praticamente dobrando nos últimos 5 anos. No entanto, a infraestrutura e a mão de obra qualificada do país não acompanharam esse crescimento:

"A gente dobrou o número de nascimentos no Brasil em 5 anos, mas não dobrou o número de domadores, nem dobrou o número de cocheiras. Os bons domadores têm fila de espera de meses e as principais hípicas do Brasil estão em obras para aumentar o número de cocheiras"

Esse descompasso resultou em um cenário de ajuste: para Bernard, os preços de potros e animais jovens nos leilões estão caindo e tendem a se normalizar. Em contrapartida, há uma escassez crônica e preços extremamente elevados para o cavalo pronto (aqueles de 1,30m até o Grande Prêmio). Segundo Bernard, o mercado deve se equilibrar naturalmente à medida que os proprietários perceberem que preparar e formar o cavalo em casa, investindo em profissionais qualificados, é agora o produto mais interessante do mercado.

Confira o episódio completo no Spotify ou YouTube da 2clac!

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